Zelensky precisa responder por corrupção no seu governo, diz ministro demitido na Ucrânia

  • 23/08/2026
(Foto: Reprodução)
Ex-minsitro da Defesa ucraniano Mykhailo Fedorov Alina Smutko / Reuters O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky deve ser questionado sobre a corrupção em seu governo, disse à BBC o ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov, que foi demitido. Fedorov, um ministro popular que modernizou as forças armadas e foi pioneiro na guerra com drones, foi demitido no mês passado após supostamente ter entrado em conflito com o chefe das Forças Armadas da Ucrânia. Ele disse à BBC que a investigação sobre lavagem de dinheiro anunciada na semana passada indica que Zelensky deveria ser questionado sobre seu conhecimento de possíveis casos de corrupção em seu círculo íntimo. Mas ele afirmou que não viu o presidente se envolver em nenhuma atividade corrupta. "Durante todo o tempo em que trabalhei com ele, nunca recebi dele qualquer tarefa ou incumbência que fosse contra a lei ou meu senso de integridade", disse Fedorov. Ucrânia ataca infraestrutura econômica da Rússia e deixa mortos; Putin ameaça com retaliação O ex-ministro também reiterou seu apelo para a realização de eleições na Ucrânia, dias depois de divulgar um vídeo no qual pedia uma votação em tempos de guerra. Zelensky diz que eleições em tempos de guerra dividiriam a Ucrânia e seriam um 'tsunami' para o país "A democracia não deve ser refém de Putin", disse ele — sem declarar suas próprias ambições políticas. Houve protestos acalorados contra a demissão de Fedorov, mas seu apoio diminuiu e as manifestações terminaram na quarta-feira, após a confirmação de seu substituto. Ao ser questionado se sentia falta do antigo emprego, respondeu que não, mencionando o estresse permanente de gerenciar a guerra da Ucrânia com a Rússia e, ao mesmo tempo, reformar o Ministério da Defesa. A Ucrânia está sob lei marcial desde a invasão pela Rússia em 2022, o que significa que as eleições estão suspensas. O mandato presidencial de cinco anos de Zelensky terminou em maio de 2024. Mas Fedorov disse que é seu "direito moral" iniciar a conversa sobre as eleições. "Não devemos ter medo de discutir isso. É disso que se trata a democracia. Se eu não posso compartilhar minhas ideias e ser transparente sobre elas com a minha própria sociedade, então pelo que estamos lutando?" Se as eleições nunca fossem realizadas, disse ele, "então deixaríamos de ser uma democracia". Eleições e guerra Em sua declaração em vídeo anterior, Fedorov argumentou que "as pessoas não podem viver indefinidamente em um estado em que não entendem por que certas decisões são tomadas". Ele evitou criticar o presidente diretamente e se recusou a responder se apoia Zelensky para vencer qualquer eleição. Zelensky afirmou, em declarações divulgadas no domingo, que acreditava que eleições em tempos de guerra seriam muito perigosas para a Ucrânia no momento. "Acredito que, em uma guerra como esta, as eleições representam um risco enorme", disse ele. "As eleições agora são um tsunami para o país, que dividirá a Ucrânia." Especialistas apontaram diversos obstáculos à realização da votação, entre eles a definição de como votariam os soldados, os milhões de refugiados ucranianos e os moradores dos territórios ocupados, além do risco de campanhas de desinformação promovidas pela Rússia. O vídeo de Fedorov, que denunciava a corrupção política na semana passada, foi divulgado um dia antes do anúncio de uma investigação de lavagem de dinheiro envolvendo parlamentares e banqueiros. O gabinete anticorrupção da Ucrânia afirmou ter descoberto um esquema para desviar o equivalente a mais de US$ 3 milhões em moeda ucraniana para pagar a fiança de um ex-ministro da Energia acusado de lavagem de dinheiro. Um funcionário de alto escalão do gabinete de Zelensky, supostamente envolvido no caso, foi demitido. Fedorov disse que havia dúvidas sobre o conhecimento do presidente a respeito de uma possível corrupção em seu círculo íntimo. "Deixem que ele responda a essa pergunta... Acredito que ele esteja preparado para esse tipo de questionamento. É responsabilidade dele nos dizer se ele tinha conhecimento de tudo isso ou não... Não quero fazer suposições." Um porta-voz do presidente havia declarado anteriormente à BBC News: "Como o ex-ministro fez parte de todos os governos desde 2019, é estranho que ele se expresse como se fossem governos diferentes sem ele. Como todos se lembram, não ouvimos nenhuma declaração contundente dele naquela época." Fedorov afirmou ter eliminado focos de corrupção do ministério da Defesa, mas alertou que isso ainda afetava a capacidade da Ucrânia na linha de frente. O ex-ministro afirmou que não tinha tido contato com o presidente "há algumas semanas" e que não possuía provas de que o presidente fosse pessoalmente corrupto. "Durante todo o tempo em que trabalhei com ele, nunca recebi dele qualquer tarefa ou incumbência que fosse contra a lei ou meu senso de integridade. Essa é a minha experiência pessoal com ele." Como ministro da Defesa e, anteriormente, ministro da Transformação Digital, Fedorov é reconhecido por ter inovado ao substituir soldados por um "exército de drones", salvando vidas no campo de batalha e possibilitando ataques ucranianos de longo alcance contra alvos militares russos, refinarias de petróleo e armazéns de distribuição — a milhares de quilômetros além da fronteira. Ele afirmou que continuará promovendo novas formas de travar a guerra e confirmou uma visita aos Estados Unidos nas próximas semanas, onde espera se encontrar com Elon Musk. O sistema de comunicações via satélite Starlink, do bilionário empresário, tem sido fundamental para o sucesso da Ucrânia. Fedorov pretende convencer Musk a estender a tecnologia ao espaço aéreo russo para auxiliar os ataques ucranianos, sem que o Kremlin se beneficie do acesso. "As melhores empresas de tecnologia do mundo estão nos apoiando e investirão em nossa vitória, no fim desta guerra. E precisamos manter contato com elas, independentemente da minha posição. Tenho um histórico de sucesso trabalhando com elas e preciso manter contato com elas pelo bem do meu país", disse ele. Fedorov criticou a burocracia no Reino Unido e em outros países que apoiam a Ucrânia pelos atrasos no fornecimento de armas. O Reino Unido é um apoiador de longa data da Ucrânia, tendo gasto US$ 21 bilhões no fornecimento de armas desde o início da guerra. Foi confirmado na semana passada que drones de fabricação britânica foram usados para atacar alvos russos. Fedorov disse estar grato pelo apoio britânico, mas culpou a "burocracia e a papelada" pelos atrasos no recebimento do equipamento prometido. "Os governos estão ficando para trás em relação à realidade no terreno. Não é um problema apenas do Reino Unido, mas também de outros países que anunciam alguma ajuda e nós só a recebemos no final do ano." Fedorov defendeu o financiamento direto da mais recente produção de drones ucranianos, em vez de habilidades e equipamentos obsoletos de outras nações: "Não precisamos de reparos em tanques quando não os utilizamos mais." Ele afirmou que as entregas em tempo hábil ajudariam a salvar não apenas vidas ucranianas. "Infelizmente, nossas perdas, nosso sangue, nossa experiência militar são benéficas para todos vocês. Vocês podem obter essa experiência por toda a ajuda que nos dão." Fedorov negou ter ambições políticas imediatas, mas não descartou uma futura candidatura à Presidência. "Tudo dependerá de quão cedo conseguiremos relançar este processo eleitoral democrático, [...] quanta energia eu terei, se conseguirei preservar minha equipe, se serei capaz de responder à pergunta pessoalmente, se conseguirei lidar com este cargo de presidente ou não." "O mais importante é se as pessoas me dirão: 'Sim, podemos confiar em você para desempenhar essa função'."

FONTE: https://g1.globo.com/noticia/2026/08/23/zelensky-precisa-responder-por-corrupcao-no-seu-governo-diz-ministro-demitido-na-ucrania.ghtml


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