Patinete elétrico ou moto: estudo encontra diferença surpreendente nas lesões após acidentes

  • 15/08/2026
(Foto: Reprodução)
Duas pessoas em um patinete elétrico em Paris, em 1º de abril de 2023 Sarah Meyssonnier/Reuters Uma queda de um patinete elétrico pode parecer, enganosamente, algo sem gravidade. O condutor fica em pé a pouca distância do chão e, diferentemente de uma motocicleta, a maioria dos patinetes elétricos é limitada a velocidades relativamente moderadas. Ainda assim, cirurgiões de trauma têm atendido lesões que contam uma história diferente. Acidentes com patinetes elétricos podem causar traumatismos graves na cabeça, danos a órgãos internos e fraturas complexas — às vezes após o que parece ter sido uma simples queda. Isso é importante à medida que os patinetes elétricos se tornam um meio de transporte cada vez mais comum em cidades ao redor do mundo. Uma nova pesquisa realizada na Inglaterra e no País de Gales oferece um dos retratos mais claros até agora das lesões envolvidas. O estudo analisou mais de 15 mil pessoas com lesões moderadas ou graves registradas em um banco de dados nacional de trauma. O grupo incluía 580 condutores de patinetes elétricos, mais de 7 mil motociclistas e mais de 7 mil ciclistas. Agora no g1 A diferença mais evidente estava no que acontecia com a cabeça dos condutores. Entre adultos gravemente feridos, os traumatismos cranioencefálicos eram cerca de três vezes e meia mais comuns entre condutores de patinetes elétricos do que entre motociclistas e cerca de 1,7 vez mais comuns do que entre ciclistas. Mais de um terço das lesões registradas entre adultos que conduziam patinetes elétricos envolvia traumatismo cranioencefálico. Lesões em órgãos internos e vasos sanguíneos também eram proporcionalmente mais comuns. As fraturas, no entanto, eram menos comuns entre condutores de patinetes elétricos do que entre motociclistas ou ciclistas. Há uma ressalva importante. Esses números não significam que fazer um trajeto de patinete elétrico torne uma pessoa três vezes e meia mais propensa a sofrer uma lesão cerebral do que andar de motocicleta. Os pesquisadores não dispunham de informações comparáveis sobre o número de viagens ou a distância percorrida por motociclistas e ciclistas. Em vez disso, os resultados mostram que, quando as pessoas sofrem lesões moderadas ou graves, o padrão dos ferimentos provocados por um acidente de patinete elétrico é diferente. Lesões na cabeça e em órgãos internos representam uma proporção muito maior dos traumas resultantes. Essa distinção é importante quando manchetes descrevem os patinetes elétricos como “três vezes mais arriscados” do que motocicletas. O estudo não permite afirmar que um trajeto de patinete elétrico tenha uma probabilidade três vezes maior de resultar em lesão grave do que um trajeto de motocicleta, porque os pesquisadores não tinham dados comparáveis sobre as distâncias percorridas em cada um desses meios de transporte. Por que patinetes elétricos podem causar lesões graves Uma possível explicação para esse padrão de lesões está na forma como os patinetes elétricos são projetados e conduzidos. Os usuários ficam em pé, o que lhes dá um centro de gravidade relativamente alto. As rodas são muito menores do que as da maioria das bicicletas, enquanto o guidão oferece um ponto estreito por meio do qual o condutor Patinetes elétricos: estudo revela risco elevado de traumatismo craniano em acidentescontrola o veículo. Ao atingir um buraco, meio-fio ou algum objeto na pista, a pequena roda dianteira pode parar de repente. O condutor continua se movimentando para a frente e pode ser arremessado por cima do guidão em direção ao chão, com pouquíssima proteção entre sua cabeça e o asfalto. Isso torna o uso de capacete particularmente importante. Entre os condutores de patinetes elétricos gravemente feridos incluídos no estudo, apenas cerca de 6% foram registrados como usuários de capacete, em comparação com 45% dos ciclistas e 76% dos motociclistas. Crianças e adolescentes também apareceram de forma desproporcional nos dados. Cerca de 16% dos condutores de patinetes elétricos feridos registrados no banco de dados de trauma tinham menos de 18 anos — proporção substancialmente maior do que a observada entre ciclistas ou motociclistas feridos. Uma segunda parte da pesquisa analisou mais de 23 mil incidentes envolvendo patinetes elétricos de aluguel, em um universo de mais de 33 milhões de viagens e quase 78 milhões de quilômetros percorridos. As taxas de colisão variaram consideravelmente entre as cidades, sugerindo que o local onde as pessoas circulam pode ser tão relevante quanto o veículo que utilizam. Dados oficiais dão uma indicação da dimensão mais ampla do problema. Na Grã-Bretanha, a polícia registrou 1.312 colisões envolvendo patinetes elétricos em 2024, que resultaram em 1.390 vítimas: seis pessoas morreram e estima-se que 444 tenham ficado gravemente feridas. Como são tratadas as lesões causadas por patinetes elétricos O tratamento depende do tipo de lesão. Fraturas leves podem exigir gesso ou órtese. Fraturas mais complexas podem exigir cirurgia com placas, parafusos ou hastes metálicas. Traumatismos cranianos graves podem demandar cuidados intensivos, cirurgia cerebral ou reabilitação prolongada, enquanto hemorragias internas podem exigir cirurgia de emergência. As consequências, portanto, podem ir muito além do acidente inicial. Alguns segundos em um patinete elétrico podem resultar em meses de afastamento do trabalho e de reabilitação e, nos casos mais graves, em incapacidade permanente. Muitos dos fatores que contribuem para essas lesões podem ser reduzidos. Um capacete não consegue evitar uma queda, mas pode proteger a parte do corpo que parece particularmente vulnerável. Os condutores também devem se familiarizar com a aceleração, a frenagem e a direção antes de entrar em vias com tráfego intenso. A velocidade faz diferença, principalmente em pistas molhadas ou irregulares. Usar o celular, transportar outra pessoa ou conduzir após consumir álcool acrescenta riscos a um veículo que, por si só, já exige equilíbrio e concentração. Os patinetes elétricos têm vantagens claras: são convenientes, relativamente baratos e podem substituir trajetos curtos de carro. Milhões de viagens são realizadas sem que ocorram lesões graves. Mas sua aparência pode enganar. Um patinete elétrico pode se parecer mais com um brinquedo infantil do que com uma motocicleta, mas as lesões observadas em centros de trauma mostram que cair de um deles não é necessariamente um incidente sem gravidade. *Jerry Tsang é professor clínico sênior de Cirurgia do Trauma e Ortopédica na Queen Mary University of London

FONTE: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/08/15/patinete-eletrico-ou-moto-estudo-encontra-diferenca-surpreendente-nas-lesoes-apos-acidentes.ghtml


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