'Descanso é sentado na moto': a rotina de quem passa até 18 horas fazendo entregas no Rio

  • 31/07/2026
'Descanso é sentado na moto': a rotina de quem passa até 18 horas fazendo entregas no Rio "Descanso na moto sentado. O descanso é esse. Tenho 2 filhos, tenho que ir pro 'corre'." A frase do entregador Marcos de Jesus, de 33 anos, conhecido como MC Chefinho da Nova, resume a rotina de milhares de motociclistas que cruzam o Rio diariamente levando comida, compras de mercado, remédios e outros produtos até a casa dos clientes. Para aumentar a renda, ele diz que chega a trabalhar entre 16 e 18 horas por dia — e, em alguns dias, até mais. No segundo episódio da série especial do RJ2 sobre o avanço das motos no Rio, a reportagem mostra como o crescimento dos aplicativos de entrega mudou a cidade, criou uma nova fonte de renda para milhares de trabalhadores e ajudou a impulsionar o aumento do número de motocicletas nas ruas – e também a insegurança no trânsito. Mais sobre a série do RJ2: Frota de motos cresce 65% no Rio em 10 anos e muda a mobilidade da cidade; veja por quê Pandemia: o boom das entregas Chefinho entrou nesse mercado durante a pandemia, em 2020. Com a população em casa, as entregas explodiram, e o número de trabalhadores do setor também. "Vi como uma rota de escape para sustentar minha família e tentar melhorar minha vida." Hoje, ele trabalha em um ponto de apoio em Botafogo. Recebe por entrega — o valor mínimo é de R$ 8 — e conta com as gorjetas para complementar a renda. Em meses melhores, diz conseguir ganhar entre R$ 6 mil e R$ 8 mil, mas ressalta que o faturamento oscila e depende diretamente da quantidade de horas trabalhadas. Dificuldades do dia a dia Dávila Heloisa Alves, de 23 anos, trabalha exclusivamente para uma plataforma de entregas e percorre uma área que vai da Barra da Tijuca a Jacarepaguá. "Moto faz parte de mim", diz. Além da liberdade de organizar a própria rotina, ela afirma que encontrou no aplicativo uma forma de ganhar dinheiro. Mas a jornada também é marcada por dificuldades. Durante um único dia de trabalho, Dávila relata que teve o uso do banheiro negado por estabelecimentos e reclama da falta de empatia com quem passa o dia nas ruas. "Água, comida e banheiro não se negam a ninguém. Ainda mais sendo mulher.. Imagina você precisar trocar um absorvente e tomar vários nãos na cara?" Segundo o economista Daniel Duque, esse tipo de ocupação se consolidou nos grandes centros urbanos na última década e já representa cerca de 2% da força de trabalho no país, chegando a até 5% em algumas cidades. O crescimento acompanha a expansão dos aplicativos e a mudança de hábitos dos consumidores, que passaram a pedir cada vez mais produtos para entrega em casa. Desafios Ao mesmo tempo, em que ampliou oportunidades de trabalho, o modelo também trouxe novos desafios. Sem jornada definida, muitos entregadores passam o dia inteiro conectados aos aplicativos para aumentar o faturamento. Associações da categoria reivindicam: reajustes na remuneração; mais transparência na distribuição das corridas; e melhores condições de trabalho. Desrespeito às leis de trânsito A busca por mais entregas também ajuda a explicar um cenário cada vez mais comum nas ruas. Para ganhar tempo e aumentar os ganhos, muitos motociclistas desrespeitam regras de trânsito, aumentando a sensação de insegurança entre motoristas, ciclistas e pedestres. O RJ2 fez flagrantes de "bandalhas" (veja no vídeo no início da reportagem) e conversou com motoristas e pedestres. "É bem caótico. Aumentou bastante de um tempo pra cá, e eu acho que eles não respeitam as leis de trânsito, tanto para os motoristas quanto para pedestres", diz a farmacêutica Rebeca Catanhede. 'Economia do bico' Para Daniel Duque, o fenômeno faz parte da chamada gig economy, ou "economia do bico", em que a demanda é intermediada por plataformas digitais e os trabalhadores têm flexibilidade, mas pouca previsibilidade sobre a renda e praticamente nenhuma proteção trabalhista. "Ela não oferece uma estabilidade em relação ao futuro de um, dois anos pra frente. Então, você acaba maximizando o seu trabalho, o que dá pra fazer enquanto você pode. E aí elas acabam indo para esse tipo de trabalho para poder maximizar o quanto elas trabalham, porque no trabalho regular isso é muito menos permitido, muito mais regulado", explica Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Enquanto roda pela cidade atrás da próxima corrida, Chefinho já pensa no futuro. "Vivo um dia após o outro para ter uma casa própria. Minha meta é viver tranquilo."

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/07/31/descanso-e-sentado-na-moto-a-rotina-de-quem-passa-ate-18-horas-fazendo-entregas-no-rio.ghtml


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