Assassinato de policial militar encontrado carbonizado teve motivação passional, aponta investigação
24/08/2026
(Foto: Reprodução) Quem é a PM presa por envolvimento na morte de policial encontrado carbonizado no CE
O inquérito da Polícia Civil afirma que o assassinato do policial militar Raphael Sampaio de Silva, de 27 anos, teve motivação passional, visto que ele e a policial militar Júlia Natália, ambos casados com outras pessoas, mantinham um relacionamento extraconjugal. Júlia e o marido, Antoneudo Ribeiro Lima Júnior, foram indiciados pelo homicídio de Raphael.
O crime aconteceu no dia 11 de agosto, após Raphael sair do serviço acompanhado de Júlia, que era sua colega de equipe e havia trabalhado com ele no plantão. O soldado foi encontrado carbonizado em um carro em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza. Segundo a Perícia Forense, Raphael levou três tiros na cabeça e depois de morto teve o corpo queimado.
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Horas após a morte de Raphael, Júlia Natália foi presa devido a contradições em seu depoimento - ela dizia que estava no carro com o colega de farda quando os dois foram atacados por criminosos. A militar teria sido amarrada em um matagal. Porém, câmeras de segurança captaram Júlia circulando em liberdade no horário em que dizia estar amarrada. Antoneudo Ribeiro, marido de Júlia, também foi preso no mesmo dia.
De acordo com o inquérito policial, obtido pelo g1, Júlia Natália e Raphael costumavam se encontrar após o serviço e diziam aos seus respectivos cônjuges que estavam chegando tarde em casa devido a ocorrências policiais. Testemunhas relataram que Antoneudo sabia que Júlia Natália e Raphael tinham um caso e que ele tinha "intenso ciúme" dela.
Júlia Natália Girão Gomes, Raphael Sampaio da Silva e Antoneudo Ribeiro Lima Júnior
Reprodução
Testemunhas também relataram à polícia que Raphael já havia revelado o relacionamento com Júlia e acreditava que Antoneudo sabia, pois Júlia havia mostrado uma foto de Raphael para o próprio marido. Na véspera do homicídio, Raphael disse a uma pessoa próxima que ele e a amante planejavam assumir publicamente o relacionamento, divorciando-se dos respectivos cônjuges.
"Dessa maneira, a hipótese de motivação passional não decorre exclusivamente da existência abstrata de uma relação extraconjugal, mas encontra suporte em elementos indicativos de que Antoneudo tinha conhecimento da infidelidade e de que a relação entre Júlia e Raphael permanecia ativa em período imediatamente anterior ao crime", aponta o inquérito policial.
Para a polícia, há indícios suficientes de que Júlia Natália e Antoneudo atuaram juntos e "conscientemente" no homicídio de Raphael, mediante divisão de tarefas. Com isso, o casal foi indiciado por homicídio qualificado, por recurso que dificultou a defesa da vítima e por motivo torpe, relacionado ao contexto de relacionamento extraconjugal e ciúme.
A defesa de Júlia Natália, representada pelo advogado Walmir Medeiros, disse que vai pedir a soltura da agente. Já a defesa de Antoneudo Ribeiro, feita pela advogada Karla Borges, afirmou que não vai comentar o caso.
Disparos contra a vítima
A análise da polícia apontou Antoneudo Ribeiro como provável responsável pelos disparos contra o soldado Raphael Sampaio. Embora não haja imagens diretas disso, a tese, segundo o inquérito, é sustentada pela dinâmica do crime.
Na madrugada do crime, Júlia e Raphael estavam no carro do soldado, um Hyundai I30, quando um Chevrolet Prisma se aproximou e estacionou. Conforme a investigação, o Prisma havia sido comprado por Antoneudo em setembro de 2025.
Nas imagens obtidas pela Polícia Civil, o ocupante do Prisma desce - sem que seja possível vê-lo diretamente - e, momentos depois, são vistos três clarões rápidos. Segundo os investigadores, os clarões seriam os disparos de arma de fogo. A Perícia apontou que Raphael foi baleado justamente três vezes na cabeça.
Pouco depois, o Prisma deixa o local com pelo menos um passageiro, além do motorista. Na sequência, o veículo entra na casa de Júlia e Antoneudo. No exame de papiloscópica realizado no interior do Chevrolet Prisma, foram encontradas impressões papilares de Antoneudo. Posteriormente, às 7h17, Antoneudo foi registrado conduzindo o Chevrolet Prisma até uma oficina.
Para a Polícia Civil, a "análise integrada dos elementos informativos produzidos no curso da investigação permite formular [...] a hipótese de que Antoneudo Ribeiro Lima Júnior possa ter sido o agente que efetuou os disparos de arma de fogo contra Raphael Sampaio da Silva, embora os registros audiovisuais disponíveis não permitam afirmar essa individualização em caráter conclusivo".
"Esse encadeamento permite considerar plausível, no plano indiciário, que Antoneudo, movido pelo conhecimento do relacionamento extraconjugal mantido por sua esposa com Raphael, tenha se utilizado do Chevrolet Prisma para participar da abordagem e execução da vítima e que possa ter sido a pessoa que desembarcou do veículo imediatamente antes dos disparos", consta do documento.
Mais tarde, câmeras de segurança voltariam a filmar o Prisma, desta vez a cerca de 220 metros de distância do local onde o carro de Raphael foi incendiado, com ele dentro. Um exame pericial identificou ainda que Antoneudo apresentou uma lesão no punho direito, com características de queimadura de segundo grau. O exame foi realizado três dias após o homicídio do soldado.
Carro é incendiado em Fortaleza.
Isaac Macedo/SVM
Participação de Júlia
Para a Polícia Civil, a soldado Júlia Natália teve o papel de um "agente ativo" no crime. "Júlia buscou trabalhar exatamente no plantão de Raphael; deixou o batalhão na companhia dele; acompanhou a vítima até as proximidades de sua própria residência; e, após os acontecimentos relacionados ao homicídio, aparece novamente vinculada a Antoneudo", diz a investigação.
Uma testemunha relatou que Júlia não estava escalada para o serviço entre os dias 10 e 11 de agosto (data do crime), mas insistiu para trabalhar naqueles dias com a equipe de Raphael, além de oferecer R$ 50 para outra agente trocar de lugar com ela na escala.
Além disso, após o crime ela apresentou a versão de que havia sido sequestrada por terceiros após uma abordagem na qual Raphael teria sido atingido por disparos, sustentando ter sido retirada pelos cabelos e colocada no porta-malas de um veículo desconhecido.
A policial militar Júlia Natália foi indiciada pelo homicídio do soldado Raphael Sampaio.
Arquivo pessoal
Quando foi encontrada após o suposto sequestro, ela estava vestindo um vestido rosa. No entanto, ela não soube dizer em em que momento teria tirado a farda da Polícia com a qual havia saído do serviço e passou a vestir o vestido.
Imagens de câmeras de segurança mostraram que logo no início da manhã - menos de quatro horas após o crime - Júlia e Antoneudo foram deixar a filha na escola. Na sequência, eles foram a uma oficina de um conhecido, onde deixaram o Prisma de Antoneudo e saíram em um Fiat Pulse. Testemunhas reconheceram que, nesta hora, Júlia usava o vestido rosa.
Para a Polícia Civil, Júlia colaborou com Antoneudo na ação criminosa, sobretudo após o assassinato. "Sua conduta antecedente e, sobretudo, a atuação posterior coordenada com Antoneudo e a apresentação de versão incompatível com os registros objetivos constituem elementos relevantes de adesão à empreitada investigada", diz o inquérito.
Vídeo: PM e marido deixando filha na escola no horário em que ela alegou estar amarrada.
Cronologia do crime
Conforme o inquérito policial, que o g1 teve acesso, imagens de videomonitoramento, sistemas de leitura de placas, prova testemunhal, exames periciais e confronto das versões apresentadas pelos investigados ajudaram os investigadores a reconstruir os acontecimentos que levaram a morte de Raphael Sampaio.
Segundo a Perícia Forense, Raphael levou três tiros na cabeça e depois de morto teve o corpo carbonizado dentro do próprio carro. No veículo, a perícia encontrou uma algema no banco traseiro e um recipiente com gasolina abandonado próximo ao automóvel.
Soldado Raphael Sampaio da Silva, de 27 anos, encontrado carbonizado dentro de um carro, estava na Polícia Militar desde junho de 2022.
Reprodução
Veja a cronologia do crime:
16 horas do dia 10 até as 2 horas do dia 11 de agosto: segundo o documento, Raphael e Júlia trabalharam juntos no serviço das 16 horas do dia 10 até as 2 horas do dia 11 de agosto.
Entre 1h48 a 1h58 do dia 11 de agosto: imagens do 16º Batalhão da Polícia Militar registraram o encerramento do serviço de Raphael e de Júlia.
2h19: Raphael e Júlia foram ao estacionamento do 16º BPM e, posteriormente, entraram no Hyundai I30, pertencente a vítima, deixando a unidade policial.
2h36: o carro de Raphael passou pela Avenida Jornalista Thomaz Coelho, em frente a Areninha, indo em direção ao terminal de ônibus da Messejana.
2h40: Raphael chegou à Rua Florêncio Fontenele, onde Júlia morava com o marido Antoneudo.
2h41: câmeras de segurança próximo da residência registraram que o carro de Raphael transitou vagarosamente pela mesma rua até chegar debaixo de uma árvore, local onde o soldado estacionou o veículo, que permaneceu parado por cerca de 21 minutos.
3h02: um veículo branco posicionou-se atrás do carro de Raphael e, 4 minutos depois, realizou manobra de marcha à ré, colocou a traseira do segundo veículo contra a traseira do veículo da vítima.
3h6: aparecem nas imagens clarões atrás do veículo branco, onde, segundo a polícia, são perceptível três sons compatíveis com tiros de arma de fogo. Tudo ocorreu a cerca de 30 metros de distância da residência de Júlia e Antoneudo.
3h07: os dois veículos deixaram o local em direção à Rua Antônio Alves Ribeiro, sentido BR-116, ocasião em que o veículo branco foi identificado pelas características externas como sendo um Chevrolet Prisma.
Nas imagens seguintes, obtidas pela polícia, o Chevrolet Prisma seguiu na frente, acompanhado de perto pelo veículo de Raphael. Esse foi o último registro dos dois carros juntos antes do soldado ser encontrado carbonizado no próprio automóvel.
3h22: o sistema de videomonitoramento registrou o Prisma trafegando sozinho, a cerca de 226 metros do local em que o veículo e o corpo de Raphael foram encontrados carbonizados.
Infográfico: PM é encontrado carbonizado dentro de carro no Ceará
Arte/g1
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