Artesãs Kadiwéu levam cerâmicas feitas com barro da própria terra ao Festival de Bonito
29/08/2026
(Foto: Reprodução) Artesãs Kadiwéu levam tradição e cerâmica ao Festival de Bonito
Antônio Bispo
Do barro retirado da própria terra às peças moldadas e queimadas no fogo, a arte das mulheres Kadiwéu ganhou espaço no Festival de Inverno de Bonito (MS). Pela primeira vez, um grupo de artesãs participa do evento para apresentar e vender cerâmicas produzidas dentro do Território Indígena Kadiwéu, em Porto Murtinho.
Entre as expositoras está Neilce Bernaldino da Silva, que cresceu convivendo com as artesãs e hoje participa do processo de recuperação da produção de cerâmica em sua comunidade. Segundo ela, o trabalho começou a ser retomado no ano passado e reúne mulheres das aldeias Tomázia, Alves de Barro e Campina.
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“É um privilégio muito grande de podermos estar aqui vendendo. Nossa venda está sendo um sucesso”, contou.
Barro é retirado da própria terra
O processo para transformar o barro em uma peça começa ainda na natureza. As artesãs retiram a matéria-prima dentro do próprio território indígena e fazem todo o trabalho manualmente.
Depois de moldadas, as peças não são levadas a fornos industriais. A queima é feita diretamente com fogo.
“É muito trabalhoso, desde a coleta do barro até a queima. Nossas peças são queimadas com fogo, não com forno”, explicou Neilce.
Até as cores usadas nas peças vêm da natureza. Segundo a artesã, não são utilizadas tintas compradas. Os próprios tipos e tonalidades do barro são aproveitados para criar os desenhos e acabamentos.
“Todos os materiais são da natureza. Até as tintas também são da natureza, do próprio barro. A gente não compra nenhum tipo de tinta”, disse.
A técnica também carrega uma história que atravessa gerações. O conhecimento é ensinado principalmente dentro das famílias, passando de mãe para filha.
A intenção das artesãs é manter essa tradição viva e ensinar o trabalho às próximas gerações.
“Futuramente, nosso foco é passar para os nossos filhos, os netos”, afirmou Neilce.
Nova marca reúne produção das artesãs
A participação no festival também marca o lançamento de uma nova marca criada para reunir e dar maior visibilidade aos produtos Kadiwéu.
A Godidiko reúne cerâmicas, camisetas e bolsas com grafismos tradicionais. A proposta é aproximar os produtos de novos compradores sem deixar de lado os conhecimentos e a identidade cultural das comunidades.
O lançamento ocorreu na sexta-feira (28), no Espaço de Economia Criativa do festival. Cerca de seis artistas Kadiwéu apresentaram parte do catálogo desenvolvido durante o projeto.
As artesãs permanecem no espaço durante o Festival de Inverno, onde expõem e comercializam os produtos.
A criação da marca é resultado de um trabalho desenvolvido ao longo de oito meses, com atividades de qualificação da produção, orientação sobre apresentação dos produtos e preparação para novos mercados.
Para Madalena, da Aldeia Tomázia, as capacitações ajudaram a ampliar a produção de peças.
“Eu só tenho a agradecer aos nossos caciques, líderes e aos professores que nos ensinaram”, afirmou.
Para Elenilda, também da Aldeia Tomázia, estar no festival tem um significado ainda maior por representar a comunidade em um espaço diferente das aldeias.
“Pela primeira vez vou sair para representar a comunidade em um espaço como esse. É uma honra representar as mulheres ceramistas”, disse.
Artesanato busca novos públicos
A participação no Festival de Inverno representa uma nova etapa para as artesãs, que agora conseguem apresentar o trabalho para pessoas de diferentes lugares e ampliar as possibilidades de venda.
O Território Indígena Kadiwéu fica em Porto Murtinho e tem cerca de 538 mil hectares. O local reúne conhecimentos tradicionais, grafismos e uma produção de cerâmica marcada pelas técnicas e características próprias do povo Kadiwéu.
O trabalho de fortalecimento do artesanato é desenvolvido pela Wetlands International Brasil e pela Mupan – Mulheres e Lideranças pelas Áreas Úmidas, organizações que atuam com o povo Kadiwéu desde 2015. Desde 2017, a iniciativa também integra ações do Programa Corredor Azul.
A ideia é ajudar as artesãs a alcançar novos espaços de comercialização, mas mantendo a identidade e os conhecimentos tradicionais presentes em cada peça.
Festival segue até domingo
O Festival de Inverno de Bonito começou na quarta-feira (26) e segue até domingo (30), com atrações gratuitas espalhadas por diferentes pontos da cidade. Além do artesanato e da economia criativa, a programação reúne música, teatro, dança, literatura, exposições e outras manifestações culturais.
Neste sábado (29), a principal atração é Seu Jorge, que sobe ao Palco Sol com um repertório que mistura samba, soul, MPB e funk.
No domingo (30), Humberto & Ronaldo encerram o festival com sucessos do sertanejo universitário.
As artesãs Kadiwéu também permanecem no festival neste fim de semana, com exposição e venda das peças produzidas no território indígena.
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